24 de maio de 2008


O gosto da palavra jabuticaba

Por sobre a língua, no centro, nas abas

Saboreio-o

__ Repito-o

___ Sorvo-o

___ Sugo-o

Hei de lê-lo ao florescimento do pomar

Fechando os olhos

E ampliando o olhar

O gosto da palavra jabuticaba

Mesmo quando termina, não acaba


16 de maio de 2008


Pra que portas?

Pra que janelas?

Se sequer sei como entrei

E muito menos se há outra saída,

Além deste mocho e desta corda roída


Olhos na parede branca

O tempo passa

O tempo passa

Passa, passa

Segue passando


Vão-se dois minutos,

Três

Já são vinte agora


Os olhos na parede descascada

E uma vida desperdiçada


11 de maio de 2008

Soneto Oncológico


Crânio invadido pelo intruso corte

De um bisturi com sangue azul-materno

Sorriso ingênuo, desengano e sorte

Espelho hostil de um vil minuto eterno


Rente ao singelo rasgo curvilíneo

Uma descrença em Deus, no renascer

O fio de náilon que cosia o exímio

Desenho tétrico, em lembrança a um C


O julgamento então final da ré

Triunfo de um pós-Batalha das Metástases

Num paliativo precedente ao coma


Falência múltipla de corpo e fé

A neoplasia galopando abasta-se

Guerra perdida ao infante carcinoma


5 de maio de 2008

1 de maio de 2008


À beira da morte

De costas para a vida

Entre o lúdico e o lipídio

Repousam a navalha implante,

Pós-suicídio,

A carta do adeus dado

E o lápis desapontado


9 de março de 2008

O monstro


A coluna era ereta

Curvou-se aos poucos

Ao longo do tempo

Os muitos tormentos

Ao longo do lombo

O queixo no ventre

Em pernas esquinas

Joelhos cadentes

Velório da mente

A forma dos loucos

A norma da sina

Imprimia seu medo

Não falava ou sorria

Preenchia em mal cheiro

As frestas, as quinas

Rasgava dinheiro

Parecia ter muito

Ninguém entendia

Qual fato fortuito?

Um nobre revolto

Caduco e errante

Seus trapos velavam

Um segredo intrigante

A cifose evidente

O casulo poente

Se arrastava nas valas

Da vida corrente

Refém de um exílio

Sem cotidiano

Sem segundas-feiras

Monstro mal-trapilho

Sem eira nem beira

A triste corcunda

Pesava-lhe a alma

Testava-lhe a calma

Sem casa, sem carros

Comia dinheiro

Um monstro de trapos

Urbano e indefeso

Não era inserido

Não era contado

Um ser esquecido

À sorte, ao acaso

Mas dizem que o monstro

Já foi diferente

Já deu conferência

Já fez reuniões

Já teve até metas

Já viu o horizonte

Já teve a coluna ereta

O monstro invisível

Já teve até amigos

Já foi um ser humano

Já foi um ser sensível

Mas hoje seus planos

São apenas olhar para o próprio umbigo


24 de fevereiro de 2008

Crônica de uma Metrópole

Antônia entrou no seu quarto, deu um pulo em cima da cama, deitou-se de bruços e começou a balançar as pernas. Estava feliz, aliviada. Tinha acabado de matar o namorado. Rolava na cama para lá e para cá, eufórica. Pegou o celular na mão. Pensou em contar para as amigas que estava solteira, mas resolveu continuar ali, a sós consigo mesma. Não queria se preocupar ainda com as questões legais que isso implicaria. Se seria procurada, se iria presa, não. Isso era um problema para mais adiante. Naquele momento só queria celebrar o fato de que a partir daquele dia o namorado nunca mais ia poder magoá-la novamente.

Tirou os calçados. Olhava para o teto, sorrindo, orgulhosa.
Antônia era assim, determinada no que fazia. E naquele dia sua determinação disse: chega. Convidou o namorado para sair e fez a mesma coisa que ele costumava fazer com ela há dois anos: feriu seu coração. Com dois tiros secos. Estava eufórica, hiperativa. De pé, andando de um lado para o outro. Precisava gastar aquela energia acumulada. Tocou almofadas na parede, pegou um livro, folheou, jogou no chão, abriu a cortina, fechou a janela.

E no exato instante que fechou a janela, aquela moça que convencionei chamar de
Antônia desapareceu da minha crônica para retornar quem sabe em um outro momento, em uma outra cena, em um outro horário, ou mesmo em uma outra crônica. Em metrópoles como São Paulo em que as pessoas residem logo ali no prédio ao lado, a vida alheia é vista em pedaços cotidianos. É preciso imaginação para interpretá-la. E não se preocupar se essa interpretação é verídica ou não.